ACERTO DE CONTAS
ACERTO DE CONTAS
O barulho incessante da chuva forte fez suas pálpebras se entreabrirem e no mínimo espaço que ali produziram uma luz branca e suave vazou para dentro de sua retina. Ao longe ressoou uma voz tão suave quanto à luz, uma voz de outra época, de outra vida talvez, mas não durou muito e logo tudo voltou a ser breu.
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Ivan!? Ivan!? Sei que pode me ouvir. O médico disse que tenho que conversar com você, mesmo que você não responda, isso vai ajudá-lo a voltar. Diminuímos sua medicação, então daqui algumas horas você irá acordar. Está um lindo dia lá fora, você sabia?
Não, não sabia. Como poderia? Aquela voz, era tão doce e lírica quanto o som de uma harpa, tão suave quanto o toque sedoso do tergal, e tão distante que na verdade nem sabia se existia.
Tentou abrir os olhos pois queria saber se era real, a voz. Rompeu o lacre de lágrimas endurecidas e avistou uma aura, branca, limpa. Tudo era branco, mas ela… Ela era mais. Não havia foco, nem consciência, apenas vida.
-Ivan? – Quem? Quem era Ivan?
Já me vou, até logo.
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Um apito agudo soou alto dentro de seu tímpano e com volúpia abriu os olhos. Branco foi tudo que viu, tão alvo, tão celestial, que parecia a obra de um anjo. Mas durou pouco. De repente sentiu o mundo recuar como se despencasse de costas de uma montanha russa, sua cama não se moveu, mas sim as paredes ou o que quer que fossem, sentiu um frio no estomago tão grande que lhe arrepiou todos pelos do corpo e o que antes era branco agora não era mais. Não havia luz, som ou cheiro. Vácuo. Tentou se mexer, levantar as pernas, mas não as tinha, nem braços, tentou gritar mais nada rompeu o silêncio. Sentiu medo, solidão. Um vazio tanto e tão grande que levava ao desespero. Então ao longe uma pequena esfera apareceu, rolando suavemente pelo infinito. Tentou piscar para ver mais, mas não tinha pálpebras. Ela rolava e se aproximava e pôde ver sua cor: vermelha, e com a cor veio o som, um ganido doloroso seguido de outro e mais outro que foi ficando mais alto e triste, ecoando dentro de seu crânio como se lá não houvesse nada. E ouviu gritos e choros e pôde ver a esfera agora grande na sua frente e viu que não era lisa, se mexiam na superfície filamentos curtos e seu chão parecia se mover também. Escutou lamentações de profunda dor e horror como nunca antes ouvira e petrificou quando viu que os filamentos eram braços e pernas e a superfície era na verdade rostos, rostos disformes de seres inomináveis que gospiam e xingavam – Baal Zebub! Ecrom! Ivan! – E se aproximavam como se fossem esmagá-lo ou trucidá-lo com seus braços podres que pungiam sangue e veneno. Sentiu seu crânio trincar e um líquido asqueroso tocar seu rosto com cheiro de morte – Parem, Parem! – Gritou em sua mente, mas não adiantou.
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Ivan!? Ivan! Saia.
Chame seu pai.
Vá. Não falte com o respeito de novo!
Maldito. Amaldiçoado – Que as chagas do inferno lhe rasguem a pele e lhe sequem o fígado – Pensou o garoto. Já tinha idade para ir embora, mas não queria sair sem nada, não, tinha feito muito por aquelas terras. Arado quilômetros e quilômetros com as próprias mãos, plantado milhares de sementes com os próprios dedos e ainda assim era preterido por aquilo que lhe diziam ser seu pai. Discordava ele dessa colocação e sempre que possível dizia que era órfão de pai e às vezes de mãe. Aquele dito consumia a todos com suas mentiras e falácias, com sua sede de poder arruinava quem quer que lhe opusesse certeza e para ele seu único filho o que restava? – Nada! Nunca sobra nada!
Caminhou até o celeiro onde o velho costumava se embriagar junto com as empregadas do lugar, tudo sob o consentimento de sua mãe. No começo achava que era apenas tonta, mais agora sabia que alem de tonta era retardada, vivendo sempre no seu mundo de faz de conta. Uma família feliz, dizia nas rodas de (poucos) amigos. Entrou pelo portão de madeira que ele sozinho havia construído e logo sentiu o cheiro do estrume que lembrava sempre o de seu pai. Aproximou-se das estribeiras vazias, todos animais estavam no pasto, menos um, que dormia com as calças arriados ao lado de uma garrafa do whiskey mais barato. O canto estava escuro e era iluminado apenas por uma lamparina.
Que inútil – Pensou alto – Dormindo na palha com a lamparina acesa.
Aproximou-se da garrafa e viu que ainda possuía conteúdo. Abaixou-se e a pegou. Deu um trago. Então delicadamente derramou o resto sobre o corpo inerte e sobre a palha seca. Seus olhos negros como petróleo incendiaram e seus lábios sorriram, levou a mão à boca para não gargalhar e com um toque da pesada bota que vestia, esmigalhou o frágil vidro que continha o fogo dentro da lamparina e então o fogo alegre com a liberdade saltou como um animal ensandecido por sobre a palha e engoliu o corpo com voraz apetite lhe queimando as roupas e os cabelos antes que pudesse acordar. Ivan ficou a observar o desgraçado e pensou se já não estaria morto, mas com um grito de dor postou-se de pé por alguns segundos balançando loucamente os braços e xingando, porem estava tão bêbado que mal podia andar, caiu de cócoras gemendo enquanto sua carne queimava, começou a rolar no chão se debatendo como uma galinha sem cabeça, esticou a mão e pediu ajuda, chamou pelo nome e depois como sempre acontecia o xingou e o amaldiçoou, então se abaixou lutando contra o fogo que já consumia grande parte do celeiro e disse:
Te vejo no inferno! – Naquele momento as labaredas explodiram em combustão e subiram aos céus e Ivan no topo de sua glória e alegria levantou os braços e rindo e gozando sua felicidade viu nas paredes demônios de fogo fazendo-lhe reverência, sorrindo e dançando enquanto tudo vinha abaixo. Então se voltou e agarrou aquilo que havia sobrado de seu pai, correu e chamou por socorro, antes porem ateou fogo na própria roupa.
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Era a primeira vez que ouvia risadas pelo menos do quanto podia se lembrar, não sabia bem ao certo onde estava. Vivo? Talvez não. Talvez aquilo não passasse de um sonho que tinha outros sonhos dentro, é, isso acontecia, porem não se lembrava de ter acontecido antes, na verdade não se lembrava de nada.
Teve outro pesadelo? – Mais risadas – O pessoal está fazendo uma festa de despedida, um dos pacientes recebeu alta – Que tal abrir os olhos?
Não sabia se podia, não sabia se queria. Tinha medo. Medo daqueles rostos, daqueles gritos. Forçou levemente a pálpebra esquerda e mais uma vez uma luz branca inundou seus olhos, abriu o outro e viu pela primeira vez seu rosto. Aos poucos algumas coisas foram tomando forma e cores, já não via somente branco, mais nuances laranja e vermelho e também amarelo, um amarelo dourado que se movimentava ao seu redor.
Bom… Já está me vendo? Acho que não. O doutor disse que veras apenas vultos por alguns dias. Você estava mal, mas agora estou feliz que esta aqui e não do outro lado.
Dito isso passou a mão aveludada no rosto enrugado e cheio de pelos do paciente. Como era bom, como podia ser tão macia e quente? Apesar de não se lembrar de nada tinha certeza que nunca tinha sentido nada igual antes.
Vou ter de sair. Daqui trinta minutos eu volto para lhe ver, está bem? – Queria responder mas tudo que saiu de sua boca foi vento, queria perguntar o que estava fazendo ali, quem era ela e também quem era ele, afinal onde estava e por que não se lembrava de nada.
Aguardou ansioso pela sua volta, o que não aconteceu. Então fechou os olhos e dormiu.
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Levantou da cama e abriu a cortina que dava para a baia. O dia estava chuvoso. Do jeito que gostava. Acendeu um cigarro e ali ficou por algum tempo apreciando aquele corpo perfeito deitado de bruços na cama do hotel. A parca claridade que entrava foi suficiente para fazer o corpo se remexer.
Feche isso! – Disse com a voz rouca a prostituta de luxo.
Feche você a matraca e caia fora daqui. Tenho um compromisso muito importante e não quero me atrasar.
Hum, mais tão cedo?
Vá. Ande logo. Quem sabe na volta não mando lhe chamar.
A loira se levantou e deixou a mostra seu corpo nu. Valia cada centavo. Linda.
Vagabunda. Adorava isso, a simplicidade como as coisas aconteciam quando você tinha dinheiro, ninguém lhe negava nada, ninguém lhe dizia não. Bendita hora em que seu pai ateou fogo no celeiro. Herói – Vejam, arriscou a própria vida pelo pai e olhe que ele o tratava tão mal – Diziam os incautos na época. Idiotas, toda aquela gente do interior, aquilo havia ficado pequeno para ele, aquele cheiro de estrume, o trabalho pesado, não, nunca mais, tratou de vender tudo que seu pai construira e se pudesse queimaria tudo, até sua casa. Mas vender foi uma boa escolha, os negócios na cidade iam bem, muito bem. Às vezes lembrava de sua mãe, de quando era pequeno, ali foi feliz por algum tempo, mas faz tanto que só lhe restou um fiapo de memória, como a lembrança de um sonho que não se sabe ao certo se aconteceu ou não. Ela soube desde que o mirou nos olhos e viu que por fora se espremiam e se contorciam a ponto de saltarem cristais límpidos, mas por dentro ardiam tão quentes quanto o fogo, com uma alegria incomensurável. Pena que tenha ficado louca pouco depois, isso foi o que disso o médico da região depois que sua conta bancária recebeu alguns dígitos a mais. Foi internada num ótimo sanatório, Ivan porem nunca soube qual.
Olhou-se no espelho e relutou em fazer a barba, talvez a deixasse, criava um ar mas aristocrático, os investidores adoravam isso, então apenas aparou a mesma. Molhou os cabelos e os penteou. O prateado artificial das temporas contrastava com seus olhos negros e absolutamente sem expressão, suas sombracelhas grossas davam ainda mais destaques a eles, seu rosto quadrado e seu nariz afinado cirurgicamente o deixavam esbelto e chamativo, assim como seu corpo trabalhado a duras penas.Vestiu um Armani de alguns milhares de dólares e saiu.
Acordou com o movimento suave da cama hidráulica e quando abriu os olhos viu o teto vermelho claro e depois o dourado intenso que cobria sua cabeça, quase podia ver seu rosto, piscou algumas vezes mas uma nevoa lhe encobria a íris.
Olá.
Olá.
Você falou! Que bom. Como está sua vista?
Melhor. Quase a vejo. Você… É jovem.
Era mesmo. Mas não podia ver toda sua beleza. Sua pele clara porem dourada contrastava com seus olhos verdes, tão profundos quanto o próprio mar e tão imensos quanto o próprio céu, seus cabelos loiros brilhavam ao toque da luz e desciam até um palmo dos seus ombros, seu corpo por sob a beca branca e retangular da clínica já anunciavam suas verdadeiras curvas generosas.
Sou sim. Aqui é meu primeiro emprego.
Que lugar é esse?
Uma clínica de reabilitação. A melhor da cidade. Não se preocupe se no começo não se lembrar de algumas coisas o médico disse que isso é normal, seu trauma foi muito intenso.
Trauma. Que tipo de trauma?
Não sei dizer, não temos acesso às fichas dos pacientes e…
Acha mesmo que não me lembraria se tivesse acontecido algo comigo? Eu não lembro de nada!? Não lembro meu nome! Não sei quem eu sou! Onde está esse médico?! Eu quero vê-lo agora! Eu quero, eu quero meu advogado!
– Como se pudesse se lembrar de quem ele era.
Desculpe senhor, acho que não posso ajudá-lo – Virou-se com olhar frio e caminhou rumo a saída, flutuando como se o chão não fosse mais do que uma nuvem.
Não, espere, volte, eu não quis dizer… Isso – Sentiu um vazio quando o silêncio retornou a sala sem sua voz presente, que parecia cantiga de ninar. Não ouviu mais nada por um bom tempo e ficou ali a forçar sua mente a trazer sua vida de volta. Ivan era seu nome e isto era tudo que sabia.
Percebeu no alto uma televisão e tateou a cama em busca do controle, encontrando-o no final de seu braço esquerdo, pensou que seria bom ouvir a voz de alguém, nem que fosse de um simples aparelho, talvez ouvindo o noticiário lembrasse de algo de sua vida. Pressionou os botões em busca de algum sinal na tela turva para seus olhos, mas nada aconteceu, achou que não estava funcionando até que um chuvisco cinza acompanhado de um chiado baixo mostrou o contrário. A princípio ouviu muitas vozes, mas nenhuma capaz de identificar a língua, as imagens não ajudavam, eram borrões coloridos passando de um lado para o outro, tentou outro canal, mas todos eram iguais, enquanto o volume subia sem ao menos ter tocado no controle. Aquele som não parecia ser pronunciado por nenhum humano, era como se alguém engasgado tentasse falar, então chamou e gritou por alguém, mas o som agora ensurdecedor tampava e enviava de volta o ar que saia de sua boca, sua cabeça começou a doer como no outro sonho e achou que tinha adormecido, mas sentia dor, muita dor, seus músculos começaram a ficar rígidos e seu corpo duro, seu coração disparou e podia vê-lo batendo freneticamente sobre o peito, tentou levantar o braço e alcançar o botão da enfermeira, mas já não conseguia coordená-lo, então em meio ao caos de som e dor fincou os olhos na televisão e viu claramente a imagem de alguém pegando fogo, rastejando e depois rolando aos berros de suplício, viu sua carne derreter e seus olhos secarem enquanto implorava pela ajuda não dos céus, mas sim dos demônios, viu seu rosto escuro como carvão soltar pela boca um líquido escuro e espesso e sentiu o cheiro da podridão, tossiu como se fosse vomitar e pigarreou para fora da boca o mesmo líquido e quanto mais tossia mais escorria, era tão sujo e grosso como o petróleo e viu que dele saiam larvas brancas que rastejavam pela sua pele em busca de seus orifícios e lá penetravam, pela narina sentiu abrirem espaço pela sua fossa nasal então cair na sua laringe e voltar novamente com o líquido ainda mais sujo, até que um jato grosso saiu de sua boca levanto toda sua bílis ao ar, e ouviu dentro de seu tímpano direito uma voz sussurrante e compreensível, uma voz de criança – Ivan, Ivan, está chegando a hora, estou te esperando – Forçou os olhos e viu um rosto angelical de cabelos loiros como o ouro mais puro e de olhos tão negros como bolas de gude, seu rosto arredondado e sua pele cor de pêssego levou Ivan a achar que era um anjo que vinha salvá-lo, até que esta abriu a boca e de dentro saiu uma língua verde e difurcada na ponta tão comprida e fina como a de uma cobra. Seu coração parou e tudo ficou escuro.
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O movimento frenético fez seu corpo suar em bicas e seus músculos saltarem da órbita, o choque da carne contra os ossos fez sua parte íntima doer. De prazer. Gostava de ouvir os gemidos, mesmo que fossem falsos, por isso sempre pagava caro, quanto mais caro mais exclusivo e às vezes não titubeava em oferecer sua riqueza mesmo a quem não era do ramo. Poupava tempo. E quase sempre conseguia o que queria. No momento máximo enterrou seus dedos nas ancas generosas da profissional que emitiu um som agudo, quase real.
Levantou-se com o suor escorrendo de seu corpo. Naquela época do ano fazia muito calor por aquelas bandas. Melhor assim, todo mundo ficava mais à vontade, mais feliz, era isso que queria, ver todo mundo feliz. Bêbados, drogados e felizes, todos eles, atores, políticos, empresários, todo mundo. O investimento era alto, mas valia a pena, principalmente na sua profissão. A morena levantou e mostrou seu busto avantajado.
Ah! Que calor. Vou tomar um banho, você vêm?
Agora não. Preciso ver se não falta nada aos convidados. Vá enquanto me recupero e quando voltar vou querer algo especial de você – Dito isso lançou um olhar lascivo sobre as nádegas da garota.
Vestiu um calção qualquer e dirigiu-se a ampla sala da casa principal. Toda em madeira era desenhada no estilo europeu e possuía tudo que o dinheiro podia comprar. Na sala encontrou dois casais. Uma das mulheres massageava as partes íntimas da outra enquanto esta era possuída pelos homens. Um deles olhou para Ivan e sorriu, com um movimento da cabeça apontou para a mesa onde se via uma garrafa de whiskey, um pó branco e uns comprimidos de viagra.
Mais tarde, José – Ali ninguém tinha nome, apenas apelidos. Só pedia para não se esquecerem quem eram de verdade e dos nomes que tinham a zelar. Escândalos não seriam tolerados e dentro do possível, sem violência, uma morte podia ser difícil de explicar, pelo menos de um dos convidados.
O sol fustigava maldosamente a pele de quem o enfrentava, mesmo assim a piscina estava cheia. Todos nus. Até um dos garçons, agora desprovido do uniforme, se enrolava a uma figura carimbada do congresso– Quem diria
– Disse a si mesmo. Tudo parecia em ordem. Retornou então para dentro da casa e viu de relance os casais, ou melhor o casal de mulheres se beijando e se introduzindo as mãos enquanto os homens pareciam buscar forças no pó que restou na mesa.
Entrou no quarto e ouviu o barulho do chuveiro. Tirou o calção e deitou de costas na cama. Tinha bebido demais. Escutou tocar seu celular e o apanhou na cabeceira da cama.
Alô?
Ivan? Por favor me escute!
Como conseguiu este número? Pensei que tivesse sido bem claro.
Por favor, eu não teria ligado se não fosse importante…
Vou desligar agora e você nunca mais vai me procurar!
Não! Espere! Ivan, o caso é grave, eu juro, eu não queria, não queria procurá-lo, mas não tenho mais a quem recorrer.
Você quer mais dinheiro? Hem?
Não é para mim, é para sua filha…
Cale a boca sua prostituta! Nunca mais diga isso de novo! – O chuveiro desligou, então se levantou e correu nu para fora sem ver o que acontecia na sala.
Já lhe disse que não tenho filhos! Já lhe dei dinheiro suficiente.
Por favor! – Choro – Tenha misericórdia o caso dela é grave eu não tenho mais dinheiro, não sobrou nada. Ajude-me. Por favor.Eu faço o que você quiser… Eu me deito com você e faço o que você quiser.
Você perdeu o juízo? Por que iria querer isso? Você está velha, está acabada, e eu posso ter quem eu quiser! Eu posso foder quem eu quiser!
Por favor, pela última vez me ajude. Senão eu vou contar, eu contarei tudo, todos saberão o monstro que você é! Como pode negar seu sangue, assassino! Assassino! – Tirou o aparelho do ouvido e tomado de fúria arremessou-o contra a parede. Ali atrás da casa ficou andando em círculos e esmurrando a parede até lhe escorrer sangue por entre os dedos. Mas não tinha problema, sabia o que fazer, havia favores a cobrar de gente bem localizada na sociedade. Jornais. Tribunais. Policia. Chegava a hora de cobrar pelos favores.
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Seus olhos irão doer um pouco, estão desacostumados da luz do dia.
Era a primeira vez que saia da cama. O dia estava lindo, não fazia calor e nem frio. Vestia uma bata verde que chegava até os joelhos e seus ombros eram agraciados com os toques constantes de suas mãos. Aos poucos sua visão se deu conta de toda luminosidade do dia e de cores tão vibrantes como jamais vira. Podia vê-la em toda sua beleza, seus olhos, seus cabelos, sua boca. Não tratava com mais ninguém e nunca viu ou ouviu outra enfermeira. Apenas ela. Que fosse assim. Desistiu de lutar contra sua memória e deixar as coisas acontecerem, quem sabe assim os pesadelos cessariam. Gostava tanto de conversar com ela que até agora não sentiu falta de ninguém. Até agora.
Deslizou na cadeira de rodas por um caminho de pedras cercado de flores cheirosas e um gramado muito verde e liso. Passaram por uma fonte ruidosa e o esguicho lhe tocou o rosto com frescor. Sentiu-se extremamente bem, quase feliz, e também estranho como se nunca tivesse sentido isso antes. Continuaram até um círculo central onde se dispunham vários bancos de madeira a volta, no meio um arco de metal prateado trazia a inscrição “Nasat Heyav” algo de judeu, talvez. Dali estendiasse um bosque gramado, mas a cadeira o impedia de seguir. Pararam próximo a um dos bancos e sentiu a brisa perfumada entrar por suas narinas. Mal podia esperar para correrem por dentre aquelas árvores, brincar como crianças e rolar na relva. Olhou para ela que sorriu.
É lindo. E estranho. Parece que a amnésia me tirou todas as sensações. É como se eu nunca tivesse parado um só minuto para apreciar a natureza.
Nossa vida é composta dessas coisas pequenas, o conjunto delas é que fazem o todo ter sentido.
Quem é aquele? – Levantou o braço apontando para um dos bancos onde se sentava um paciente. Não lembrava de tê-lo visto chegar.
Não sei seu nome, mas costuma vir muito aqui. Sua neta o vem visitar e adora correr pelo bosque.
Pode me levar até lá? – Sentiu uma necessidade incomoda de conversar com ele.
Conforme se aproximava vislumbrava sua face coberta por uma barba comprida e branca, seus cabelos eram brancos também e assim que chegaram perto ele se virou.
Olá, amigo – Seus olhos eram negros assim como os de Ivan.
Olá.
Veio apreciar o dia? Realmente está um lindo dia. Não me lembro de ter visto outro dia tão agradável.
Engraçado. Estava com essa mesma sensação há minutos atrás.
Tenho certeza que já aconteceram antes. Dias assim, bonitos. Mas talvez você não se lembre por que nunca se deu conta de prestar a devida atenção – Olhou nos olhos de Ivan que os achou familiares, não por serem negros, mas pela sensação que transmitiam.
Estou com amnésia pós-traumática. Mas tenho certeza que nunca deixaria um dia como este passar inócule.
Claro. Olhe, lá está ela. Corre como o vento! Não vejo a hora de sair daqui e se a idade ainda me permitir, corrermos juntos atrás das borboletas.
Sua neta? Onde? – Virou o rosto e entre as árvores viu um vulto dourado. Então por detrás de uma figueira ouviu sua voz.
Vovô! Achei um figo!
Ela é linda e tem os seus olhos – Disse a enfermeira.
Não, tem os olhos do pai – Retribui o senhor.
Ivan forçou a vista para ver também e quando a pequena virou o rosto o que viu não foram olhos humanos, eles ardiam em chamas e sua íris era ovalada como a de um animal peçonhento e pelo seu rosto escorriam lágrimas de sangue que ao tocarem o solo queimavam a grama como ácido e de sua boca saiu uma língua fina e bifurcada que tremulou um cântico obsceno.
Está quase na hora – Soltou um grito e levou os braços ao rosto com tanta força que virou a cadeira de rodas.
Acordou ainda trêmulo e sentiu o braço doer ao menor movimento, sinal de que haviam lhe dado injeções. Depois do que viu não lembrava de mais nada. Levantou o pescoço e a viu sentada na poltrona em frente à cama.
Olá – Como um sorriso terrivelmente sincero – Você entrou em choque, então tiveram que ti dar alguns remédios.
Eu vi de novo!
O que você viu?
Eles… Os demônios. Estão atrás de mim. Eu não sei o por que. Acho que estou enlouquecendo.
Não digas bobagem. Você está transtornado sim, mas já solicitamos um psiquiatra para você.
Não, foi real, eu sei.
Ivan deve haver algo que o preocupa. Algo do seu passado. Talvez você esteja sofrendo por algo que tenha acontecido, algo que te atemoriza.
Não, eu não agüento mais. Eu não vou agüentar. Eu quero ficar em paz, eu quero morrer – Levando as mãos ao rosto para esconder a tristeza.
Não digas coisas das quais pode se arrepender! Não se preocupe estou aqui para te ajudar.
Olhou nos seus olhos e viu que se encheram de lágrimas.
Me ajude, por favor, me ajude! – Ela se levantou e aproximou-se da cama, colocou suas mãos em seu rosto e encostou-o em seu peito.
Calma. Vai passar. Sua hora está chegando. Agora vamos tomar um banho e que tal fazer essa barba?
Não conseguiu responder apenas apertou seu rosto contra seu corpo e balançou a cabeça em sinal de concordância.
Quando terminou já estava sozinho na cadeira de rodas vestindo a bata da instituição. Sentiu seu corpo perfumado e seu rosto leve. A cada brisa que o tocava no rosto um novo frescor. Fechou os olhos e lembrou da delicadeza com a qual o tocava, a suavidade com a qual lhe raspava a pele com a esponja. Já não tentava esconder de si mesmo. Estava perdido num sentimento que parecia nunca ter sentido. E se nunca mais se lembrasse que quem era? Não teria nada a oferecer, nenhuma vida fora dali. E se os pesadelos não cessassem? Será que estava enlouquecendo? Sentiu um frio percorrer seu corpo e seus pelos arrepiaram como sinal de desespero.
Então com a força de seus braços levantou da cadeira e a duras penas postou-se de pé, mas suas pernas ainda frágeis bambearam e quando tentou caminhar foi ao chão. Rastejou até o banheiro e agarrou-se na pia, novamente levantou-se com a ajuda dos braços e trincou os dedos na borda do lavabo mantendo-se de pé. Observou aquela figura no espelho, aquela figura que nem ao menos sabia quem era. Olhos negros como petróleo, rosto moreno e quadrado, notou seus músculos peitorais saltarem, assim como os do seu braço. Viu então o por que do interesse dela. Era extremamente desejável. Seria isso? Seria só isso? Sentia ela a mesma coisa? Sentiu um vazio no corpo, o medo quase infantil de quando se fica sozinho a noite, de ser esquecido, rejeitado. Por que ninguém o vinha visitar? Que tipo de pessoa era afinal? Seria tão desprezível? Não, não podia ser, sentiu-se frágil, quebradiço, queria ter alguma certeza, queria ser abraçado, acariciado. Mirou seus olhos no espelho e perdeu-se no escuro de sua íris.
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Levou o copo a boca que gelou com o toque dos cubos de gelo. Mais uma dose e não conseguiria ficar de pé. A desordem imperava no local, mal parecia o mesmo apartamento de luxo da festa de inauguração. A vadia da empregada largara a labuta havia duas semanas. Cansou-se de suas investidas maliciosas, para não dizer maldosas. Até achou estranho quando se deitou com ele, mas na tarde do dia posterior soube o porque, ainda tonto das drogas percebeu seu apartamento mais vazio, havia levado tudo que podia carregar. Maldita emigrante. Tentou achá-la mas era quase impossível achar um ilegal, eram tantos. Pousou o copo na cristaleira (vazia) e olhou para a baia da imensa janela filmada do prédio mais caro da ilha. Sempre quis morar no alto e de lá observar as formigas, miseráveis trabalhadores que por mais que se esforcem nunca chegam a lugar nenhum. Cada vez mais confiava menos nos outros, essa era a conta, quanto mais dinheiro você tinha menos pessoas ao seu redor. Esse era o preço, não que se importasse, nunca se importou, e nem os outros. Sentiu-se tonto e seus olhos se fechavam sozinhos – Melhor tomar um banho – Pensou. No caminho tocou a campainha. Não havia autorizado ninguém a subir então só podia ser o serviço do condomínio. Abriu a porta sem ao menos perguntar quem era, mas logo viu que não se tratava de alguém do lugar. Tinha uma aparência suja com os cabelos desalinhados num tom branco nas raízes e um preto desbotado nas pontas, seu rosto era cheio de rugas e manchas e tinha a pele flácida, seus olhos tinham olheras tão escuras como maquiagem enquanto esses eram tão pequenos e tristes que pareciam prestes a morrerem.
Mas quem diabos é você? E como entrou sem permissão?
Foi fácil. Só tive que mostrar minha identidade. Afinal hoje é seu aniversário e vim entregar-lhe seu presente – Tinha razão quanto à data que nem havia se dado conta.
Como sabe disso? Quem é você velha?
Não se lembra? Como pôde esquecer assim? Cada dia que passava eu pensava mais e mais em você, todos os dias aguardando sua visita, sua redenção, mas você nunca apareceu, esqueceu completamente…Você não é mais a pessoa que Deus me deu.
Meu Deus! Você é louca! Vou ligar para a segurança. Como deixam entrar esse tipo de pessoa! No prédio mais caro da cidade! Inúteis.
Ivan! Olhe para mim! Olhe Ivan! Não faças besteira ou vai se ver com seu pai.
Parou o interfone a centímetros do ouvido enquanto do outro lado da linha uma voz se repetia. Mas Ivan não respondeu. Largou o telefone que ficou pendurado pelo fio. Então se virou e admirou aquele rosto envelhecido.
Quem?! Você?! – Gaguejou as palavras que pularam de sua boca.
Agora se lembra…Filho? Lembra de mim, sua mãe, que você esqueceu, que você relegou a um canto tão escuro de sua alma que nem mais existia. Mas eu nunca esqueci você meu filho, nunca e sabe por que? Porque chegaria o dia em que eu veria sua ruína.
O que você quer. Você está completamente louca! Por isso te internei. Volte de onde veio, volte para o inferno – Sentiu seu sangue esquentar e subir para sua cabeça com uma pontada forte de dor.
Você vai pagar, você tem que pagar. Não pela justiça dos homens que é suja como você, mas pela justiça divina ou maldita. Nos veremos todos no inferno. Nossa família unida de novo – Abriu os braços e jogou a cabeça para trás como se desse aleluia, então começou a dançar – Dançar! Vamos todos dançar ao som de gritos e choros e vamos beber, beberemos o sangue dos inocentes, você tomará o de seu pai e o de sua filha e o dos outros que cruzaram seu caminho numa bela taça de cristal Strauss, eu tomarei o seu num copo de vidro e seu pai pobrezinho, bebera água, mas está será tão suja e podre como foi sua vida.
Cale-se! Velha maldita! Você devia estar morta! Morra, morra você e todo meu passado eu sou rico muito rico – Tonteou para o lado sentindo o efeito do álcool então apoiou-se na parede e começou a rir – Você não existe, vá embora.
Irei. Irei sim. Mas você vem comigo.
Puxou do velho casaco uma pistola e mirou no rosto do filho, descarregando todo o conteúdo em sua face. Depois tirou mais um projétil do bolso e colocou na agulha dando um tiro na própria cabeça.
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Chegou a hora, Ivan.
Virou o rosto que adormecia inerte na imagem de sua própria face no espelho e viu na entrada do quarto o mesmo velho do jardim. Caminhava com desenvoltura e parecia estar totalmente recuperado.
Hora? Que hora. Do que está falando? Eu ti conheço?
Caminhe até aqui. Você pode.
Sentiu suas pernas enriquecerem de repente e soltou as mãos do lavabo, apesar de poder andar normalmente sentiu medo de poder fazê-lo.
Quem é você afinal e o que está acontecendo comigo? Por favor, você pode me explicar? – Franziu os olhos em sinal de desespero.
Ouviu passos ligeiros que vinham de fora e logo adentrou na sala a criança da outra vez. Ivan precipitou-se para trás em sinal de horror, sabia que ela não era o que parecia.
Onde está sua avó? – Disse o velho para a criança.
Já está vindo – Com um sorriso lindo no rosto. Ivan por sua vez evitara de olhar em seus olhos e os protegiam com as mãos, enquanto caminhava cada vez mais para trás em direção ao lavabo.
Eu conheço vocês?! Quem são vocês? Eu não fiz nada, nada! – A menina olhou para seu avô e mais uma vez sorriu, maliciosamente desta vez.
Olá, Ivan – Era ela. Vestia um longo branco e quando entrou abraçou a pequena pelos ombros.
Não disse que iríamos nos ver de novo? Toda família junta novamente.
Do que está falando? – Tentou pronunciar algo, algo que não sabia… Seu nome.
A palavra que você quer não pode ser dita, aqui não temos nomes e em breve você também não o terá – Avançaram os três em direção a Ivan que retraiu-se ainda mais, rastejando pela parede até o chuveiro. Os três entraram no recinto rindo como se viessem de uma festa.
Não se aproximem! Saiam! Socorro! Socorro! – Gritou até perder a voz e então percebeu que estava só, sempre esteve.
Vou matá-los! Não se aproximem! – Procurou por algo perigoso, mas não encontrou nada fizesse jus ao que acabara de dizer.
Isso! Esse é seu verdadeiro eu! Isso é você – Disse o velho – Lembra do que me fez?
Não! Não, eu não lembro de nada!
Tente de novo.
Nesse instante seus olhos explodiram em luz e sua cabeça doeu violentamente fazendo ajoelhar-se com as mão nos ouvidos e quando a dor passou, lembrou-se de quem era.
Não, não pode ser! Você está morto! Você está morto! Eu matei você e você… Você, mãe… Você me matou?
E agora chegou a hora de pagar, pelo que nos fez e pelo que fez aos outros humanos. Você irá sofrer por toda eternidade por ter perdido tudo que você encontrou aqui. Tudo que você não se deu conta que era realmente importante, pois sempre foi cego, pela luxúria e pelo poder. Vais lembrar do toque saboroso do amor que nunca teve, vais lembrar da felicidade de ver o dia raiar lindo como uma criança e lembrar de sua filha como ela nunca chegou a ser por sua omissão. Isto Ivan, foi seu castigo supremo! Demos-lhe aquilo que você nunca teve e só assim você sentirá falta.
Não, me perdoem, perdoem…
Os três se entreolharam enquanto a criança se afastou.
Tenho que ir.
Claro minha filha. Vá. Aqui não há nada mais para você – E dito isso uma luz muito branca e brilhante rompeu o teto e fez a criança subir aos céus com as novas asas que lhe cresciam nas costas. Ivan paralisou e então entendeu o que o destino lhe guardava. As paredes se encheram de sangue e partes humanas escorria encharcadas de óleo negro, na sua frente viu seus corpos murcharem até virarem ossos e pele estragada então sumiram as paredes num arroto grave e tudo ficou escuro e sujo, ouviu gritos de dor e sentiu seu pulmão queimar com o ar fétido que neles entraram, ao longe uma besta gigantesca com dez chifres dos dez reis amaldiçoados surgiu do lago de fogo que arde como enxofre devorando as bestas menores, até que parou e olhou com todos os olhos para aquele que não tinha nome. Foi então que aquele se arrependeu. Mas já era tarde.
FIM
Posted on 14th December 2008
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“Superstição”vem do latim superstitio, que significa “o excesso”, ou também “o que resta e sobrevive de épocas passadas”. Em qualquer acepção, designa “o que é alheio à atualidade, o que é velho”. Transposto para a linguagem religiosa dos romanos, o vocábulo “superstitio” veio a designar a observância de cultos arcaicos, populares, não mais condizentes com as normas da religião oficial.